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Lesões por pressão (escaras): como prevenir e cuidar no dia a dia

21/08/2026 · leitura de 12 min · VIX Hospitalar

Lesões por pressão (escaras): como prevenir e cuidar no dia a dia

Quem cuida de uma pessoa acamada ou com mobilidade reduzida — em casa, no hospital ou em uma instituição de longa permanência — precisa conhecer de perto as lesões por pressão, popularmente chamadas de escaras. Elas surgem de forma silenciosa, muitas vezes em poucos dias, e podem evoluir de uma simples vermelhidão na pele para feridas profundas, dolorosas e de difícil cicatrização. A boa notícia é que grande parte dessas lesões pode ser evitada com medidas simples e constantes: mudança de posição em horários regulares, superfícies de apoio adequadas, higiene e hidratação da pele, boa alimentação e observação diária do corpo.

Neste guia, explicamos o que são as lesões por pressão, como identificar os estágios, quem tem mais risco de desenvolvê-las e, principalmente, o que fazer no dia a dia para prevenir e cuidar. Também falamos sobre curativos e materiais usados no tratamento — sempre lembrando que a escolha do curativo ideal é uma decisão do enfermeiro ou do médico que acompanha o paciente.

O que são lesões por pressão (escaras)?

A lesão por pressão é um dano na pele e nos tecidos que ficam abaixo dela, causado pela pressão prolongada do corpo contra uma superfície — o colchão, a cadeira de rodas, uma tala ou até um dispositivo médico, como sonda ou máscara de oxigênio. Quando uma região do corpo fica comprimida por muito tempo, os pequenos vasos sanguíneos daquela área são “esmagados” e o sangue deixa de circular direito. Sem oxigênio e nutrientes, o tecido começa a sofrer e, se a pressão não for aliviada, morre, formando a ferida.

Como a lesão se forma

Três mecanismos costumam agir juntos: a pressão direta sobre proeminências ósseas (regiões onde o osso fica logo abaixo da pele), o cisalhamento (quando a pele fica “presa” no lençol e as camadas internas deslizam, como acontece quando a pessoa escorrega na cama com a cabeceira elevada) e a fricção (o atrito da pele ao ser arrastada durante a movimentação). A umidade constante — por suor, urina ou fezes — enfraquece a pele e acelera todo o processo.

Locais mais comuns

  • Região sacral (final da coluna, acima das nádegas) — a mais frequente em quem fica deitado de barriga para cima;
  • Calcanhares — muito vulneráveis, pois têm pouca “almofada” natural de gordura;
  • Trocânteres (laterais do quadril) — em quem fica deitado de lado;
  • Ísquios (ossos sob as nádegas) — em quem passa muitas horas sentado;
  • Cotovelos, escápulas (omoplatas), orelhas e parte de trás da cabeça;
  • Áreas sob dispositivos: sondas, cateteres, máscaras, colares cervicais e talas.

Estágios da lesão por pressão

Os profissionais de saúde classificam as lesões por pressão em estágios, de acordo com a profundidade do dano. Conhecer essa classificação ajuda o cuidador a descrever a ferida corretamente e a entender a gravidade — mas o diagnóstico do estágio é sempre do profissional.

Estágio 1 — pele íntegra com vermelhidão que não desaparece

A pele está inteira, mas apresenta uma área avermelhada que não clareia quando pressionada com o dedo. Em peles negras, a mudança pode aparecer como tom mais escuro, arroxeado ou diferente do restante da pele. A região pode estar mais quente, mais fria, endurecida ou dolorida. Este é o momento ideal para agir: aliviando a pressão, a pele pode se recuperar completamente.

Estágio 2 — perda parcial da pele

Surge uma ferida rasa, com o fundo rosado ou avermelhado, ou uma bolha (íntegra ou rompida). A lesão atinge a epiderme e parte da derme, mas não expõe gordura nem tecidos profundos. Costuma ser dolorosa.

Estágio 3 — perda total da pele

A ferida aprofunda e a gordura subcutânea fica visível. Podem existir “túneis” e descolamentos sob as bordas. A profundidade varia conforme a região do corpo.

Estágio 4 — perda total da pele e dos tecidos

A lesão expõe músculo, tendão, ligamento ou osso. É o estágio mais grave, com alto risco de infecção — inclusive de infecção óssea (osteomielite).

Lesões não classificáveis e lesão tissular profunda

Quando a ferida está coberta por tecido morto (uma crosta escura ou uma camada amarelada), não é possível ver a profundidade — ela é chamada de “não classificável”. Já a lesão tissular profunda aparece como uma área roxa ou cor de vinho na pele íntegra, indicando dano nos tecidos internos que pode evoluir rapidamente. Ambas exigem avaliação profissional imediata.

Quem tem maior risco?

Qualquer pessoa que fique muito tempo na mesma posição pode desenvolver lesão por pressão, mas alguns fatores aumentam bastante o risco:

  • Mobilidade reduzida: pessoas acamadas, cadeirantes, em pós-operatório prolongado ou com sequelas de AVC;
  • Perda de sensibilidade: lesões medulares, neuropatia diabética — a pessoa não sente o desconforto que normalmente a faria mudar de posição;
  • Idade avançada: a pele fica mais fina, seca e frágil;
  • Desnutrição e desidratação: sem proteínas, calorias e líquidos suficientes, a pele perde resistência e a cicatrização fica comprometida;
  • Incontinência urinária ou fecal: a umidade e o contato com urina e fezes maceram a pele;
  • Doenças que prejudicam a circulação: diabetes, doença vascular, insuficiência cardíaca;
  • Rebaixamento de consciência: sedação, coma, demência avançada;
  • Histórico de lesão por pressão anterior: a área cicatrizada é sempre mais frágil.

Mudança de decúbito: a medida mais importante

“Mudança de decúbito” é o nome técnico para a troca regular de posição do corpo. É a medida preventiva mais eficaz e mais barata que existe — não depende de nenhum equipamento, apenas de constância e técnica.

Com que frequência mudar de posição

Para pessoas acamadas, a prática comum é reposicionar a cada 2 horas, inclusive durante a noite — vale montar uma tabela de horários e deixar visível no quarto. Para quem fica sentado (cadeira de rodas ou poltrona), o alívio deve ser mais frequente: pequenos deslocamentos de peso a cada 15 a 30 minutos e mudança maior a cada hora. O intervalo ideal, porém, varia conforme o estado da pele, o colchão utilizado e a avaliação do enfermeiro — em peles muito frágeis, pode ser necessário reposicionar em intervalos menores.

Como reposicionar com segurança

  • Alterne entre as posições: barriga para cima, lado direito, lado esquerdo — seguindo uma sequência fixa;
  • Ao deitar de lado, prefira a inclinação de cerca de 30 graus (semi-lateral), apoiada por travesseiros nas costas, em vez de 90 graus, que concentra pressão no quadril;
  • Nunca arraste a pessoa sobre o lençol: erga-a usando um lençol móvel (travessa) com duas pessoas, para evitar fricção e cisalhamento;
  • Mantenha a cabeceira da cama o mais baixa possível (até 30 graus), exceto durante refeições — cabeceira muito elevada faz o corpo escorregar e gera cisalhamento na região sacral;
  • Use travesseiros ou almofadas para separar joelhos e tornozelos e para deixar os calcanhares “flutuando”, sem tocar o colchão (apoie a panturrilha, nunca o calcanhar);
  • Verifique se sondas, fios e dispositivos não ficaram presos sob o corpo;
  • Estique lençóis e roupas: dobras e costuras marcam a pele frágil.
Cuidador reposicionando paciente acamado para prevenção de lesões por pressão

Colchões e superfícies de apoio

A superfície onde a pessoa passa o dia faz enorme diferença. Um colchão velho, deformado ou de densidade errada concentra pressão exatamente onde não deve. Para pessoas acamadas, o ideal é um colchão hospitalar de densidade adequada ao peso do paciente, com capa impermeável que proteja contra líquidos e facilite a higienização — como o Colchão hospitalar D33 com capa impermeável, indicado para uso em cama hospitalar ou doméstica.

Além do colchão, existem recursos complementares: colchões pneumáticos (de ar alternado), almofadas de assento para cadeirantes, coxins e travesseiros de posicionamento. Dois cuidados importantes: as famosas “luvas d’água” e as almofadas com furo no meio (tipo argola) não são recomendadas — elas concentram pressão nas bordas e podem piorar a circulação local. E atenção: nenhuma superfície especial substitui a mudança de decúbito; ela apenas aumenta a margem de segurança entre as trocas de posição.

Cuidados diários com a pele

Inspeção diária

Examine toda a pele pelo menos uma vez ao dia — o banho é um bom momento. Dê atenção especial às proeminências ósseas e às áreas sob dispositivos. Procure vermelhidão que não some, bolhas, áreas endurecidas, quentes ou escurecidas. Encontrou algo diferente? Alivie a pressão da área imediatamente e comunique o enfermeiro ou médico.

Higiene suave

Lave a pele com água morna (nunca quente) e um sabonete suave, de pH fisiológico, como o sabonete neutro Riomax 1L. Evite esfregar com força — seque com toques suaves de toalha, principalmente nas dobras. Em caso de incontinência, higienize logo após cada episódio e aplique um creme barreira (protetor cutâneo) conforme orientação profissional, para proteger a pele do contato com a umidade.

Hidratação

Pele ressecada racha e se rompe com facilidade. Aplique hidratante corporal diariamente, com movimentos suaves, evitando o excesso entre os dedos. Não massageie áreas avermelhadas ou sobre proeminências ósseas: a massagem vigorosa nessas regiões pode danificar ainda mais os tecidos fragilizados.

Nutrição e hidratação: o alicerce da pele

A pele é um órgão que se renova constantemente e, para isso, precisa de matéria-prima. Pessoas desnutridas desenvolvem lesões com mais facilidade e cicatrizam com muito mais dificuldade. Alguns pontos práticos:

  • Proteínas são essenciais para a cicatrização: carnes, ovos, leite e derivados, feijões e leguminosas devem aparecer em todas as refeições principais, salvo restrição médica;
  • Calorias suficientes: pessoas em processo de cicatrização gastam mais energia; o emagrecimento não intencional é sinal de alerta;
  • Líquidos: ofereça água em pequenas quantidades ao longo de todo o dia, respeitando restrições (renais ou cardíacas) definidas pelo médico;
  • Vitaminas e minerais (como vitamina C e zinco) participam da cicatrização — a suplementação, quando necessária, deve ser prescrita por médico ou nutricionista;
  • Em caso de pouco apetite, dificuldade para engolir ou perda de peso, peça avaliação de um nutricionista — há estratégias e suplementos específicos para cada situação.

Curativos e tratamento: sempre com orientação profissional

Quando a lesão já se formou, o tratamento envolve aliviar totalmente a pressão sobre a área, limpar a ferida e aplicar o curativo adequado ao estágio e às características do leito da ferida (seca ou exsudativa, limpa ou com tecido morto, com ou sem sinais de infecção). A escolha do curativo é uma decisão técnica do enfermeiro ou do médico — o curativo errado pode atrasar a cicatrização ou mascarar uma infecção. O papel da família é seguir o plano definido, observar a ferida e comunicar mudanças.

Entre os curativos modernos que o profissional pode indicar estão os alginatos de cálcio, como o Curativo Suprasorb A, usados em feridas com quantidade moderada a alta de secreção, e os curativos antimicrobianos com PHMB, como o Suprasorb X+PHMB, indicados quando há risco ou presença de infecção local. Você encontra essas e outras opções na categoria de curativos descartáveis.

EstágioComo se apresentaCuidado geral (definido pelo profissional)
Estágio 1Vermelhidão que não clareia; pele íntegraAlívio total da pressão, proteção da pele, hidratação; reavaliar diariamente
Estágio 2Ferida rasa ou bolhaLimpeza suave e curativo que mantenha o ambiente úmido e proteja a área
Estágio 3Ferida profunda com gordura expostaCurativos para controle de secreção; possível remoção de tecido morto pelo profissional
Estágio 4Exposição de músculo, tendão ou ossoAcompanhamento intensivo; risco alto de infecção; pode exigir tratamento cirúrgico
Não classificávelCoberta por crosta ou tecido mortoAvaliação profissional imediata para definir conduta

O que a família pode fazer no curativo

Se o enfermeiro delegar trocas de curativo simples ao cuidador, siga rigorosamente a técnica ensinada: lave as mãos antes e depois, use luvas de procedimento, limpe conforme orientado (em geral com soro fisiológico), aplique o curativo indicado e registre data, aspecto da ferida e quantidade de secreção. Nunca use na ferida produtos caseiros, açúcar, café, pomadas por conta própria ou receitas da internet — muitos deles atrapalham a cicatrização e favorecem infecção.

Sinais de alerta: quando procurar ajuda imediatamente

  • Vermelhidão que se espalha ao redor da ferida, calor local ou inchaço crescente;
  • Secreção com pus ou odor forte;
  • Dor que piora em vez de melhorar;
  • Febre, calafrios, confusão mental ou queda do estado geral;
  • Escurecimento rápido da ferida ou das bordas;
  • Ferida que aumenta de tamanho ou aprofunda apesar dos cuidados.

Qualquer um desses sinais pode indicar infecção — uma complicação que, em pessoas fragilizadas, pode evoluir para quadros graves. Não espere a próxima consulta agendada: entre em contato com a equipe de saúde ou procure atendimento.

Rotina prática de prevenção: checklist do cuidador

  • Mudança de posição a cada 2 horas (registre os horários);
  • Cabeceira baixa fora das refeições; nunca arrastar o corpo sobre o lençol;
  • Calcanhares sempre suspensos com apoio na panturrilha;
  • Inspeção completa da pele uma vez ao dia;
  • Higiene suave com sabonete neutro e secagem delicada; troca imediata de fraldas e roupas úmidas;
  • Hidratante diário na pele íntegra (sem massagear proeminências ósseas);
  • Lençóis esticados, sem migalhas, dobras ou objetos na cama;
  • Boa oferta de proteínas e água ao longo do dia;
  • Colchão e almofadas adequados e em bom estado;
  • Comunicação rápida com a equipe de saúde diante de qualquer alteração.

Perguntas frequentes

Escara e lesão por pressão são a mesma coisa?

Sim. “Escara” é o nome popular, mas o termo técnico atual é “lesão por pressão”. A rigor, os profissionais usam “escara” apenas para a crosta escura de tecido morto que pode cobrir a ferida, mas no dia a dia as palavras são usadas como sinônimos.

Quanto tempo leva para uma escara aparecer?

Depende da intensidade da pressão e da fragilidade da pessoa. Em pacientes muito debilitados, o dano nos tecidos pode começar em poucas horas na mesma posição — por isso a mudança de decúbito regular é tão importante, inclusive durante a madrugada.

Posso estourar a bolha de uma lesão de estágio 2?

Não. A bolha íntegra protege o tecido que está por baixo. Estourá-la abre porta para infecção. Proteja a área, alivie a pressão e mostre ao enfermeiro ou médico, que decidirá a melhor conduta.

Colchão especial dispensa a mudança de posição?

Não. Colchões adequados (como os de densidade correta ou pneumáticos) reduzem a pressão sobre a pele e dão mais segurança, mas nenhum equipamento substitui o reposicionamento regular do corpo, a inspeção da pele e os demais cuidados.

Que pomada devo passar na escara?

Nenhum produto deve ser aplicado na ferida sem indicação profissional. O curativo certo depende do estágio, da quantidade de secreção e da presença de infecção — e só o enfermeiro ou o médico pode avaliar isso. Produtos caseiros e pomadas por conta própria podem piorar a lesão.

Lesão por pressão cicatriza completamente?

Muitas cicatrizam, especialmente as de estágios 1 e 2 tratadas cedo. Lesões profundas levam semanas ou meses e a área cicatrizada permanece mais frágil para sempre, exigindo prevenção redobrada. Casos graves podem precisar de cirurgia reparadora.

Este conteúdo é informativo e não substitui consulta com médico. Em caso de sintomas, procure um profissional de saúde.

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